terça-feira, 30 de dezembro de 2008

20. os dois hóspedes - texto


"entre muitos hotéis da cidade, aquele era o mais
aristocrático. situado num dos pontos mais altos,
era ali que se hospedavam os viajantes mais ricos
e respeitáveis, alguns dos quais acabavam fixando
residência no edifício.

a BONDADE, a TERNURA,
o ÓDIO, a SAUDADE moravam nele.
jovem e sadia, a ALEGRIA ocupava
uma torre esguia e clara
que o sol fazia faiscar,
logo que amanhecia.

a TRISTEZA, sempre vestida de negro,
vivia num quarto sem luz, que apenas
os morcegos visitavam.

a HIPOCRISIA habitava um subterrâneo,
e a MENTIRA, um compartimento estreito,
cercado de portas falsas, que lhe
facilitavam a fuga à simples
aproximação da VERDADE.

era nesse edifício que morava, chamando a atenção
de todos, um cavalheiro moço, forte, musculoso, que
às vezes se mostrava doce, polido, gentil, tolerante,
e outras, irritado, hostil, intransigente, e,
não raro, malcriado.

era vizinho do CIÚME e, sob o menor pretexto,
altercava com ele, que era, em geral, secundado
pela DÚVIDA, cujos aposentos ficavam juntos e
tinham secreta comunicação interna.

certo dia, esse cavalheiro, após uma discussão
com os outros hóspedes, resolveu abandonar o
quarto que ocupava no hotel.

foi um escândalo.
gritos, súplicas, desmaios, bater de portas e
tampar de malas, tudo isso chegou até fora,
alertando a vizinhança. o cavalheiro foi-se,
porém, embora, deixando vazio o quarto
em que o iam visitar, alternadamente,
a VENTURA e o TORMENTO.

à tarde, bateram à porta do hotel.
era uma senhora tímida, modesta,
fisionomia bondosa, modos recatados,
que desejava aposento.

- "temos apenas um quarto, minha senhora.
foi desocupado hoje mesmo. entre!
aqui morava, até ontem, o AMOR."
- "quem?"
- "o AMOR."
- "ah! não me serve... eu não posso
residir onde esteve esse senhor."
- "e a senhora, quem é?"
- "eu sou a AMIZADE!"

e desceu, um a um, os degraus do edifício,
que tinha, não se sabe por quê,
a forma de um coração..."

(humberto de campos veras)

19. o louco



o louco
é a beira do abismo
a essência do infinito
o intelecto instintivo
a transcendêcia do perigo
a jornada para além
de todo limite conhecido
das relações entre o que se sente
e as inúmeras formas de expressão,
expressão que não te sacode
através de padrões conhecidos
mas que na luz de um arco-íris
pode abrir tuas asas de um só sopro
para alcançar um céu aberto de possíveis
um universo inteiro de imagináveis
seguindo como bússola apenas o teu desejo
e a cor do céu em cada dos teus dias
louco quem ama sem querer obter
louco quem sonha sem adormecer
louco quem se despe a cada ocaso
se renova a cada madrugada
e renasce a cada aurora,
em cada amanhecer.

bu 愛 dani weber 愛

18. manoel de barros - poema


"ando muito completo de vazios.
meu órgão de morrer
me predomina.
estou sem eternidades
não posso mais saber
quando amanheço ontem.
está rengo de mim o amanhacer.
ouço o taamnho oblíquo de uma folha
atrás do ocaso foram os insetos.
enfiei o quanto que pude
dentro de um grilo o meu destino
essa coisas me mudam para cisco.
a minha independência tem algemas."

(manoel de barros,
in 'ignorãças'1993)

17. manoel de barros - citações


surrealista.
poético, ingênuo.
imcomparável, portanto único:

* "as coisas que não existem
são as mais bonitas."

* "desaprender oito horas por dia
ensina os princípios."

* "não tem altura o silêncio das pedras."

(manoel de barros, 1993)