quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

35. clarice lispector - trechos


I. "o coração tem que se apresentar
diante do Nada sozinho
e sozinho bater em silêncio
de uma taquicardia nas trevas.
só se sente nos ouvidos o próprio coração.
quando este se apresenta todo nú,
nem é comunicação, é submissão.
pois nós não fomos feitos senão
para o pequeno silêncio,
não para o silêncio astral."

II. "porque eu fazia do amor
um cálculo matemático errado:
pensava que, somando as compreensões, eu amava.
não sabia que, somando as incompreensões
é que se ama verdadeiramente.
porque eu, só por ter tido carinho,
pensei que amar é fácil."

III. "um coração insensato, que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras, um velho coração
que convence seu usuário
a publicar segredos e a ter
a petulância de se aventurar como poeta."

IV. "estou a um quase passo de admitir
que a vida que levo é um pretexto
para ofuscar a vida que não gostaria de ter.
vida como desculpa por existir.
e o incrível é que eu não dou o passo.
fico tão imóvel que estar parada
é o meu maior movimento. o mais violento.
e não consigo sair exatamente daquele lugar
onde todas as sensações ocorrem,
justamente por estar tão grudada em mim
é onde mais dói: na pele. "

V. "não pense que a pessoa tem tanta força
assim a ponto de levar
qualquer espécie de vida e continuar a mesma.
até cortar os defeitos pode ser perigoso -
nunca se sabe qual o defeito
que sustenta nosso edifício inteiro...
do momento em que me resignei,
perdi toda a vivacidade
e todo interesse pelas coisas.
você já viu como um touro castrado
se transforma em boi.
ouça: respeite mesmo o que é ruim em você -
respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você
não copie uma pessoa ideal, copie você mesma -
é esse seu único meio de viver.
juro por Deus que, se houvesse um céu,
uma pessoa que se sacrificou por covardia
ia ser punida e iria para
um inferno qualquer.
se é que uma vida morna
não é ser punida por essa mesma mornidão."

(by clarice lispector)

34. nos poços - caio f. abreu



"primeiro você cai num poço.
mas não é ruim cair num poço
assim de repente?
no começo é.
mas você logo começa a curtir
as pedras do poço.
o limo do poço.
a umidade do poço.
a água do poço.
a terra do poço.
o cheiro do poço.
o poço do poço.
mas não é ruim a gente ir entrando
nos poços dos poços sem fim?
a gente não sente medo?
a gente sente um pouco de medo mas não dói.
a gente não morre?
a gente morre um pouco em cada poço.
e não dói?
morrer não dói.
morrer é entrar noutra.
e depois: no fundo do poço do poço do
poço do poço você vai descobrir quê."

(by caio f. abreu em 'o ovo apunhalado')